Binge watching – Jane the Virgin

Não sei se estão familiarizados com o tema mas “binge watching” é o acto de ver uma série “compulsivamente”. É também a única forma legítima de ver qualquer tipo de série. No entanto as contra-indicações alertam para um alheamento da realidade, abandono de actividades sociais e, nos casos extremos, perda de identidade do “self”.

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Resumindo eu vi toda a primeira temporada de Jane the Virgin numa semana e agora a minha vida tornou-se numa novela mexicana. Vinte e dois episódios. Sim, vinte e dois… o nome do blog, está tudo ligado.

Confesso que já tinha ouvido falar desta série porém a premissa de que uma rapariga de 23 anos tenha sido inseminada artificialmente por engano, sem nunca ter tido sexy times, não me parecia muito aliciante.

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Mas de facto a premissa é só o que é, uma forma de iniciar a história. Jane the Virgin é uma série de comédia ao estilo das telenovelas (inserir sotaque espanhol) sul-americanas mas sem de facto o ser. É uma ode a uma forma de entretenimento característico de uma cultura latina, um “viva méxico” actual onde nada se torna estático durante muito tempo.

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São vinte e dois episódios repletos de reviravoltas típicas de uma telenovela que nós sabemos que vão acontecer mas não conseguimos deixar de ficar surpreendidos. Está extremamente bem escrita e é acima de tudo uma série refrescante. Todas as personagens parecem clichés, unidimensionais mas com o desenrolar da história se tornam 3D.

Surgiu como uma sugestão da Netflix e apenas vi por curiosidade mas mal dei por isso estava a querer ir cozinhar arepas e a ter uma vozinha com sotaque espanhol no fundo da minha cabeça.

Seja notado que estou a escrever este post porque a 2ª temporada ainda não está disponível na plataforma Netflix apesar de já ter terminado este mês, porque senão estaria a ver a Jane Gloriana Villanueva.

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Agora vamos todos fingir que eu não vi spoilers quando fui procurar imagens para por aqui.

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O Oceano no Fim do Caminho – Review

Há muitos anos atrás lembro-me de ver o livro “Deuses Americanos” numa livraria e pensar que a obra abordava uma temática interessante mas que talvez tivesse uma narrativa demasiado complexa para o que eu procurava na altura. Recentemente decidi que devia aventurar-me no mundo de Neil Gaiman até porque “Deuses Americanos” está neste momento a ser adaptado para cinema. Queria um compromisso pequeno com o autor por isso em vez de saltar logo para o objetivo principal decidi provar primeiro as águas deste oceano.

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O Oceano No Fim do Caminho é contado através da perspetiva de um adulto que recorda a sua infância, pela ocasião de um funeral que o leva de volta à sua terra Natal. Da mesma maneira, ao contar a história de quando era pequeno, a personagem principal refere o ponto de mudança na sua infância, até ali normal, como sendo o suicídio de um mineiro sul-africano.  A ligação entre as duas histórias paralelas – o passado e o futuro- é a morte, porque não existe nada mais real, assustador e misterioso que esse acontecimento.

A narrativa toma contornos fantásticos e sobrenaturais que se desenrolam como metáforas dos sentimentos de uma criança de sete anos e como esta perceciona o “mundo dos adultos”. Apesar de conter um bom pedaço de fantasia mais infantilizada podemos deliciarmo-nos com as metáforas que talvez escapariam a um olhar mais jovem. O tema geral do livro manteve-me sempre em mento o filme de animação “Coraline”, inspirado pelo livro com o mesmo nome, também de Neil Gaiman. O tema subjacente de um ambiente familiar seguro que de repente é abalado por uma substituição da imagem materna é muito forte em ambas as histórias, de maneira que a visão que a personagem principal tem sobre o mundo fica para sempre alterada.

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Ainda que pequenino em tamanho este livro é grande em significado. Podemos incitar a ideia de que é essencialmente um conto sobre a memória. Sobre como acontecimentos de infância iniciam o compasso da personalidade adulta de um indivíduo, esteja este ciente desse facto ou não. Do ponto de vista de um adulto mostra que mesmo quando crescemos ou envelhecemos continuamos com dúvidas e receios e isso faz parte de “ser”.

Neil Gaiman oferece-nos algo especial com a sua escrita, algo que não é mensurável nem passível de explicação… mas nenhuma coisa especial o é.

“Vou dizer-te uma coisa importante. Os adultos também não parecem adultos, no interior. Por fora são grandes e intrépidos e sabem sempre o que fazer. Por dentro são como sempre foram. Como eram quando tinham a tua idade. A verdade é que não há adultos. Não existe nem um, no mundo inteiro.”